O primeiro e o último vôo, galeria Favo, 2006
Ave de Rapina em Vôo Rasante * Eduardo Verderame na Galeria Favo




A vida é uma fonte de alegria; mas onde quer que a canalha beba, envenena todas as fontes. Friedrich Nietzsche
Knock hard, life is deaf. Mimi Parent
O primeiro e o último vôos, este rasante. Do impulso primordial ao último movimento da civilização, trazendo em seu bojo a cultura latejante. O sentido que se constrói incerto, a partir de símbolos-alegorias-fragmentos-ilustrações de tempos pós-humanos, impactantes. Ruínas, despojos, índices de “civilização”; criação e abandono, grandes narrativas desconstruídas, demolidas, retumbantes; informação do mundo – diagnóstico? -, um mundo em que predomina o culto ao superficial e ao esvaziamento ético, ao qual a moral do bem-estar consumista também não trouxe qualquer alento, exasperante; onde práticas sociais são intermitentemente estimuladas, simuladas e esvaziadas do sentido da experiência, alienante; mundo em queintensidade e fugacidade, particular e universal convergem para um limbo híbrido e difuso, redundante. Onde processos progressivos de bestialização e de alienação se superpõem, anestesiantes. A dinâmica passiva do sucateamento da cultura, de seus aparatos e produtos – e o que mesmo chamamos de cultura? – e, por extensão, da vida é posta em xeque, dissonante. A natureza única da existência contemporânea e o inerente senso de dúvida e esvaziamento da mesma alimenta a humanidade em sua jornada rumo a um colapso que se anuncia, inexorável, acachapante. De onde advém a necessidade do enfrentamento dessa situação, do atrito como elemento gerador de uma positividade, jactante. E entrevê-se a idéia de que toda vida supõe um permanente estado de luta, condição básica que perpassa toda a história do pensamento humano, uma constante; daí a importância da linguagem como peça-chave num processo contínuo de auto-decepção humana -Nietzscheante. A inversão de valores agudamente identificada pelo velho Friedrich, ainda na sua “decadente” modernidade, culminando na crise destes mesmos valores, agora “ajustados” ao cânone superlativo-esquizofrênico da contemporaneidade – lancinante. No fundo deve-se procurar por todos os sentidos, ainda que estes se apresentem em chave desconexa, distante. Ao fim das contas o que parece prevalecer é a sensação de desencanto com o estado das coisas, e o empenho em enunciar “as condições de possibilidade das verdades”, instigante. Num ambiente dominado pelo relativismo qualquer compromisso soa como uma opção herética pela Verdade, pujante. Mudar não basta. É preciso não agir com esse grau de conformismo, como animais a caminho do abatedouro. Pílulas de niilismo lúcido, dropes de pessimismo salutar – ou nem um nem outro, apenas obra de um paladino, bufante? Respostas? Se há alguma – e sempre há os que as buscam – elas flutuam no vazio, no vôo cego – rapinante.
Guy Blissett Amado












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gostei muito do seu trabalho, tinha visto algumas coisas já, mas está bem completo aqui. textos muito bons. parabéns. vou acompanhar.
abraço
leopoldo
valeu Leopoldo, um abraço!